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quinta-feira, 4 de março de 2010

Au revoir?

Sabia-o agora, a força vinha de algum lugar místico dentro de si. Mas já não tinha mais condições de sofrer. Então, foi ter com ele a sua casa para conversarem. Aquela conversa, a definitiva, onde de uma forma ou de outra se dá de caras com o turning point.
Como a emoção do reencontro lhe atrofiou o pensamento, pediu-lhe para que ouvissem uma música. Não por acaso nem uma música qualquer. Queria que ele reparasse na letra e percebesse o que ela queria dizer sem no entanto conseguir. Mas ele nem notou; a maioria das subtilezas passa ao lado dos homens.
Remember, I will still be here, as long as you hold me, in your memory…
Just remember me.
Ele tinha-lhe dito que se poderia fácilmente apaixonar por ela.
Porque não o fez? Porque não o faz agora? De que está à espera?
Remember, I will never leave you, if you only remember me…

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dia 7

De frente para o espelho.
Vejo uma miúda.
Crescida já, pequena ainda. Alta (sempre o foi), magricela (já foi mais). Tem sardas no Verão, agora não. Tinha um sinal entre os olhos, talvez um chakra? Já não o tem, tirou-o. Com anestesia, porque é sensível à dor. Tem o corpo pintado. Há quem chame tatuagens. Há quem chame borrões. De piercings não gosta. Assusta-a furar o corpo. Furar-se. Que mais vejo? Dois olhos, um mais claro que o outro. Ou talvez não; a luz engana. Mas azuis. Há quem diga da cor do céu. Há quem diga da cor do mar. Eu digo apenas azuis, da cor dos da avó. Sem classificações desnecessárias. Tem os pés deformados de anos em pontas. E como uma marca não vive isolada, tem também cicatrizes de outras guerras. Tem muito mais que o espelho não reflecte. Como a solidão imposta a gosto. A irreverência por querer ser diferente do rebanho. O feitio rebuscado. Complicado. Por muitos (já não) aturado. Dizem que lê muito. Que sonha muito. Que perdeu as ilusões. Que gosta de gomas e cheesecake. E de coca-cola. Sim, tem vícios. Os da alma e os da vida. É feliz? Já foi menos. Já foi mais. Sim, creio que é feliz.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Dia 6

Ouve-se falar muito e nem sempre de forma positiva das pessoas “diferentes” e da tolerancia que devemos ter para com elas. Pois saibam que ser diferente é ser único. O “diferente” é dotado de uma massa especial e por isso mesmo é inteligente, porque percebe que os outros não o entendem. E percebe porquê que é agredido. Sabe que as suas opções o fazem pagar o preço de estar sempre a ameaçar o rebanho, a inveja e ódio do comum. Apesar de muitas vezes estar certo, sabe que nunca tem razão. Porquê que transformamos o potencial em caricatura? O “diferente” vê mais longe que o consenso, sente antes de os outros começarem a perceber, emociona-se quando todos agridem e riem. Só os “diferentes” esperam o que já não vem, sonham entre os realistas, falam de amor no meio da guerra, choram entre os que ofendem. Têm uma alma divina feita de luz e uma coragem gigante de se assumirem perante a vida com as suas diferenças, mais ou menos escolhidas. Têm uma estrelinha maravilhosa, que guardam e só revelam aos poucos capazes de os entender e sentir. E é nessa estrelinha que existe a ternura humana, de que só os “diferentes” são capazes.

Para um amigo,
que me deu a conhecer um admiravel mundo novo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Dia 5

Si tu no estas aquí sabrás,
Que Dios no va a entender por que te vas

Enquanto fumava o seu cigarro, vício que via como terapia face às suas obsessões recentes, lembrou-se da história de Ulisses, o marinheiro que deixou a sua casa e só voltou passados muitos anos. Ulisses nas suas aventuras passou por aqui, fundando Lisboa. A Lisboa que lhe traz sempre a sensação de ser aquele lugar no mundo onde as mulheres conhecem o verdadeiro significado da palavra esperar.
É neste seu mar que agora se refugia do caos interior. Este mar que viu tantas caravelas partirem, tantos homens fazerem-se ao horizonte, tantas mulheres que em vão mas convictamente os esperaram. Algures em Ítaca também Penelope esperou anos e anos a fio pelo regresso de Ulisses. Pretendentes não lhe faltaram mas uma mulher sabe quando só amará um homem na sua vida. Penelope viveu o suficiente para ver Ulisses regressar, velho e cansado de anos no mar a namorar sereias e a fundar cidades – a sua Lisboa.
E agora ela pergunta-se, sempre que inspira o ar que o Tejo lhe traz nas suas caminhadas onde procura o seu eu feliz, se terá sido Ulisses quem deixou de herança o mito da sua Penelope, o mito da espera. Ela sabe que todas as mulheres sabem esperar. E todas esperam. E a maioria não vê a sua espera recompensada porque os homens são todos marinheiros. E o mar raramente os traz de volta...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Dia 4

Paseare en un cielo sin estrellas esta vez, tratando de entender quien hizo un infierno el paraíso...

Nada a fazia adormecer naquela noite. Estava inquieta, com o pensamento ausente, a divagar pelas memórias. A vida humana pauta-se pela ironia... um dia tinha tudo, no outro ficara sem nada. E não tinha sequer pedido, desejado nada. Estava tranquila no seu canto, na sua paz. Mas ele foi entrando devagar na sua vida, acabando por se instalar.
Nada se dá, nada se pede... A vida faz-se de sorrisos, fé e momentos e é preciso ser-se paciente. Não chore menina, a solidão é a terra dos fortes.